Usar pelo menos 30% dos recursos destinados à
merenda escolar para aquisição de produtos
da agricultura familiar é uma das exigências
da Lei Federal 11.947, sancionada em junho de 2009.
Ao longo de 2010, poucos municípios conseguiram
cumprir essa meta, que pretende atender às
instituições de ensino da rede pública
municipal, estadual e distrital, entre escolas, creches
e entidades filantrópicas.
Para o engenheiro Agrônomo Alcides Ribeiro
de Almeida Jr, diretor técnico da divisão
de Coordenadoria de Assistência Técnica
Integral (Cati) de Bragança Paulista, órgão
da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado
de São Paulo, o governo pretende que este ano
todos os municípios se adequem à regra.
Almeida Jr. explica que um dos grandes entraves é
a organização dos produtores rurais
em um grupo formal, como exige a lei. "Com a
instituição do grupo formal é
possível garantir o fornecimento dos produtos
ao longo de todo o ano, coisa que sozinho o pequeno
produtor jamais conseguiria cumprir. Para isso, existem
duas opções: a associação
ou a cooperativa. Não tenho dúvida de
que a cooperativa é o melhor caminho, pois
permite que o agricultor tenha remuneração
adequada pela sua produção, com responsabilidade
gerencial pelo negócio", avalia.
Atento a essa demanda, o Serviço Nacional
de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado de São
Paulo (Sescoop/SP), oferece todo o suporte aos pequenos
produtores para a constituição de cooperativas
da agricultura familiar, como explica Antonio Pedro
Pezzuto Jr, consultor técnico da instituição
no ramo do agronegócio: "Desenvolvemos
um trabalho, por meio de consultoria, ao longo de
todo o processo de formação da cooperativa.
Para os empreendimentos estabelecidos, o Sescoop/SP
tem o Programa de Desenvolvimento de Cooperativas
(PDC), que treina e qualifica dirigentes e cooperados
visando, principalmente, ao aprimoramento da autogestão.
Entendemos que esse seja o caminho ideal para pequenos
agricultores em busca de uma melhor eficiência
da atividade e do aumento da renda familiar por meio
da capacidade da comercialização via
cooperativa. O PDC também aborda o negócio
da cooperativa. Informa e orienta o produtor cooperado
sobre o acesso a outros benefícios da agricultura
familiar, como o enquadramento a programas de incentivo
à produção, assistência
técnica, entre outros".
Ligado à Organização das Cooperativas
do Estado de São Paulo (Ocesp), que congrega
mais de 900 cooperativas paulistas de diversos ramos,
o Sescoop/SP realiza ações de capacitação,
de promoção social e de monitoramento
no sistema cooperativista.
Em setembro do ano passado, a Cooperativa "Entre
Serras e Águas", da região de Bragança
Paulista (SP), foi selecionada em uma Chamada Pública
para fornecer produtos da agricultura familiar para
a merenda escolar do município de Atibaia.
A "Entre Serras e Águas" foi fundada
em 16 de maio de 2007, com apoio do Sindicato dos
Bancários, Cati-Regional Bragança /
Casas de Agricultura e do Sescoop-SP, com 24 produtores
familiares. Hoje, conta com 62 agricultores familiares
cooperados de Vargem, Joanópolis, Socorro,
Atibaia e Nazaré Paulista.
O contrato em Atibaia envolve 51 produtores da cooperativa
para fornecer 31 itens, sendo 10 orgânicos.
Para Cezabenildes Gonçalves do Amaral, ex-presidente
da cooperativa, essa é uma grande conquista
que pode ainda ser ampliada. "Desde sua fundação,
a Entre Serras e Águas vem trabalhando pela
ampliação do espaço para o agricultor
familiar. Agora é manter o trabalho bem feito
e ajudar na ampliação para outras regiões",
comenta Amaral. De acordo com registros do Programa
Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar
(Pronaf), há na região de Bragança,
composta por 17 municípios, mais de 1.300 produtores
com declarações de aptidão ao
Pronaf (DAP) atualizadas, o que significa que, se
houver empenho das prefeituras junto aos setores de
merenda e de agricultura, há muito espaço
para crescer.
Almeida Jr. explica que o cumprimento integral da
"lei dos 30% da merenda" em Atibaia abre
um novo e importante espaço de comercialização,
pois valores repassados para as prefeituras pelo FNDE
são altamente significativos. "O sistema
de aquisição por Chamada Pública
não tem como premissa o menor preço,
mas o preço de referência, o que permite
a prática do preço mais justo. Além
disso, há o fato de que estamos muito próximos
da Grande São Paulo, onde temos espaço
ainda maior para o crescimento da comercialização
de produtos da agricultura familiar". Segundo
ele, a cidade de São Paulo tem adquirido produtos
de cooperativas do Rio Grande do Sul. "Os municípios
vizinhos à grande São Paulo têm
um importante potencial de mercado nessas cidades
que não contam com espaço para produção
agrícola", pondera.
Segundo Nivaldo Maia, da Companhia Nacional de Abastecimento
(Conab), 70% do que é produzido, em diversificação
e volume no Brasil, vem da agricultura familiar. "Com
a organização em cooperativa, o produtor
passa a receber o preço justo por sua produção,
sem a presença do atravessador. Antes, seus
produtos eram comercializados na Ceagesp, o que reduzia
muito sua lucratividade", explica.